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domingo, 26 de dezembro de 2010

Realidade

“Nunca me convencerá a mudar o meu modo de vida, reverendo William! Acredita realmente que eu, Ominous Jane, a mais valente e influente corsária já existente, iria me render a uma vida de cozinhar e costurar para um homem? E aproveite a viagem e diga a John, aquele covarde, que eu sei que ele me prefere como noiva, em detrimento da doce e respeitável Mary. Mas eles são o casal que mais merece ter a respeitável, comum, inaceitável e desinteressante vida que essa sociedade sem imaginação nos impõe...”

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“Imagino o que meus pais me diriam agora, Anthoine, se me vissem agora! Chamaram-me de iludida, ingênua, louca, quando larguei a medicina para me dedicar às artes! Não é mais o velho conservador Asclépio que me orienta mais – agora estou entregue às musas da literatura, música e atuação! Não sigo as imposições sociais da vida estável! Na verdade, sou muito mais estável e verdadeira sendo uma pessoa diferente por dia...”

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“Soldados, ergam seus gládios e rumo ao combate! Temos conosco a força dos deuses! Ares, Atena, Deméter, Zeus e Hefesto derramam suas bênçãos sobre nós hoje! Não somos apenas humanos subalternos em uma lida rotineira e sem emoções – cada dia temos o incomparável sabor dos combates, um diferente do outro! Podem me chamar de louca, mas digo: é melhor morrer de pé que viver de joelhos...”

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 - Mas doutor, como ela está?
 - Lamento, sem melhoras significativas. Sua loucura cresce a cada dia. Aparentemente ela foi uma corsária há três dias, uma atriz há dois e uma general grega ontem. O estranho é que ela diz sempre não estar obrigada a ser presa em nenhum caderno de normas imposto pela sociedade...

domingo, 17 de outubro de 2010

Mímico

Era mais um dia comum na Avenida Paulista. Carros, pessoas, ávores, prédios, mendigos, estruturas, praças, preto-e-branco, barulho, ordem pré-estabelecida...
 Até que apareceu. Um mímico. Branco-e-preto, toques de vermelho em uma obra bicolor. Uma manifestação física da metafísica, inesperada, diferente. no seu silêncio, imã da atenção barulhenta do mundo, executava movimentos com o mesmo afã daqueles que foram considerados loucos por ouvirem a música que a maioria não ouvia.
 Atraiu a massa. A massa que atraía a massa, em um ciclo sem fim. A massa hipnotizada, talvez encantada?
 Do modo que começou, acabou. Aquele ponto de insanidade (?) foi abafado pela sanidade. A ordem mantida.
 Onde eu estava? Era mais um dia comum na Avenida Paulista. Carros, pessoas, árvores, ´prédios, mendigos, estruturas, praças, branco-e-preto, silêncio, caos organizado...