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domingo, 17 de abril de 2011

Acordo

-Então, me chamou aqui. Sou...
-Sim, sei quem você é. É Mefistófeles, o negociador. Seria ridículo chamá-lo e não conhecê-lo.
-Bem, não eu esperava por isso. Faz algum tempo que não sou invocado, devo ter perdido a prática...
-Não me interessa as suas reclamações. Pronto para os negócios?
-HAHAHAHAHAHAHAHAHA! O homem sem coração quer negociar! Aquele que exilou o filho e a mulher, admitiu a milhares a inveja que tinha do amigo e que quis enganar Deus tenta uma transação...
-Quieta, criatura subalterna! Se atendeu ao meu chamado é porque quer ter a certeza da posse!
-Bem, que seja. O jovem Fausto me pediu todo o conhecimento do universo. Centenas requisitaram dinheiro e fortuna. Milhares, a vida eterna. Milhões, a pessoa amada contra a vontade dela. E você, o que vai querer?
-Uma tudo e terá a resposta.
-Interessante. Então seus estratagemas de advogado não convenceram nem a si mesmo. Foi totalmente tragado pela ressaca.
-Prefiro dizer que fui hipnotizado pela cigana.
-Até aqui, às portas da morte, tenta se justificar, humano tolo! Não precisa dizer nada, ator dos subúrbios. A onisciência é um dom que possuo.
-Nesse caso, não me distraia mais. Dê-me a verdade! O que aconteceu realmente?
-Estranho. Deve ser uma característica humana querer o que é pior para si...
 O espectro se abaixou ao leito do moribundo e sussurou a verdade em seu ouvido. Palavras não seriam capazes de descrever o que se passou no rosto dele. Alívio? Tristeza? Confirmação? Felicidade? Ou talvez um misto de tudo...
-Ouvistes o que queria ouvir, Iago? Ou o Santo foi satisfeito? HAHAHAHAHAHA! O acordo mais divertido de todos!
-Ah, então é isso. Bem, aí vindes outra vez, inquietas sombras...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Homem

"As feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental."
Receita de Mulher - Vinícius de Moraes

 Havia sido elogiado. E havia sido criticado, também, embora nunca se preocupara com isso. Mas vira.
 Sim, era bonito. E sabia . Além do mais, gostava. Diziam por aí que Narciso acha feio o que não é espelho. Uma grande mentira, oras. Vira e pensara que elas eram belas, com suas formas consagradas pelo tempo. Éclogas corporais. Sonetos faciais. E todo o restante.
 Achava-as realmente belas? Ou era apenas uma auto-valorização? Bem, não sabia. Não necessitava saber, aliás, desde que fossem realizadas as mostras obrigatórias diárias. Dose diária de nutrição para os olhos dos outros. Estava fazendo o favor secular sempre exigido pela maioria.
 E vira. A imagem clássica, naquele momento, sem o sentido religioso o qual a massa conhece e julga ser correto. A pomba com  o ramo de oliveira. Naquele momento sabia a interpretação correta, aquela vinda da antiguidade. E vira.
 Fora gerado a partir de conceitos idealizados pelo tempo. Não eram simplesmente Afrodites e Dafnes que o circundavam. Eram (ou deveriam) ser mais. Haveriam Penélopes e Cassandras também. Haveriam mais que simples ânforas.
 Mas, sabia. Não adiantaria estarem repletas, tampouco. Se fosse apenas isso, estaria sendo hipócrita consigo mesmo. Ainda era necessário o externo. Era preciso aquela forma, consagrada pelo tempo.
 Estava simplesmente sendo homem.